Um dia na escola: Psicohistória
Quando pensar já é ficção científica
A primeira aula de Educação em Valores Cívicos do sétimo ano começou com uma palavra incomum projetada no quadro digital: psicohistória.
—A psicohistória —disse o professor, caminhando lentamente pela sala— é uma ideia tirada da literatura de ficção científica, em particular da saga Fundação, de Isaac Asimov. Não vamos ler ficção científica hoje, mas sim pegar emprestado o seu enfoque. Asimov imaginou uma ciência que combinava matemática, estatística, história e psicologia, capaz de prever o comportamento coletivo das sociedades. Nós não vamos prever nada, pelo menos por enquanto. Mas se entendermos por que e como as pessoas acreditam em certas ideias, também poderemos pensar quais efeitos sociais essas crenças podem ter a médio e longo prazo.
Ele fez uma pausa, percorrendo a sala com o olhar.
—E para isso, primeiro precisamos aprender a reconhecer como são construídas as mensagens que buscam influenciar o que pensamos.
Alguns alunos o escutavam com atenção. Outros, confusos. Um ou outro já olhava pela janela.
—Abram seus notebooks —continuou—. Vamos trabalhar com a transcrição do discurso inaugural de um presidente muito midiático e influente atualmente, que assumiu o cargo há apenas alguns meses. É um discurso real, que aconteceu de verdade, e por isso é importante aprendermos a analisá-lo.
Um murmúrio de inquietação percorreu a sala. O documento continha trinta minutos de discurso ininterrupto. Todos entenderam que não seria uma aula leve.
—Antes de começar a análise —disse o professor— vamos diferenciar duas coisas: o falso e o falacioso. O falso pode ser refutado com relativa rapidez buscando dados em fontes confiáveis, seja em livros ou na internet. Já o falacioso é mais complexo. Pode soar razoável, até lógico. Mas, na realidade, sua estrutura é enganosa. Exige pensamento crítico, capacidade dedutiva e certo treino lógico para ser detectado.
Ele mostrou na tela o documento com anotações. Nele, havia marcado 22 tipos de falácia. Insistiu no uso preciso do termo:
—Tipos, não falácias. Porque no texto há muitas mais falácias concretas. Estas são apenas as categorias gerais que vamos usar para classificá-las.
—Sei que a lista é longa —disse o professor antes de continuar—, mas preciso que ouçam com atenção. Não basta saber que existem falácias. Para entender como operam, precisamos reconhecer suas formas. Enumerá-las agora não é um exercício de memorização, mas uma forma de vocês verem a variedade e complexidade com que os discursos podem nos desviar sem que percebamos. Algumas são óbvias, outras são sutis, mas todas têm nome e estrutura.
Então, ele se deu ao tempo de mencioná-las uma a uma, sem pressa, enquanto apareciam na tela: ad hominem, quando se ataca a pessoa em vez de refutar seus argumentos; apelo ao medo, quando se busca mobilizar o ouvinte através de ameaças ou perigos iminentes; falsa causa, que supõe uma relação causal onde há apenas coincidência; generalização apressada, que tira conclusões amplas a partir de poucos casos; espantalho, uma estratégia clássica que consiste em deturpar o argumento do outro para refutá-lo mais facilmente; anedota irrelevante, onde se utiliza um caso particular para desviar ou invalidar argumentos gerais; apelo à autoridade, que pretende encerrar o debate invocando a opinião de figuras influentes mesmo que não sejam especialistas no tema tratado; declive escorregadio, onde se afirma que uma ação inevitavelmente levará a consequências extremas sem demonstrar tal sequência; apelo à ignorância, que diz que algo é verdadeiro simplesmente porque não foi provado o contrário; e a falsa dicotomia, que apresenta apenas duas opções como se fossem as únicas possíveis, quando na verdade existem muitas outras.
Depois vieram outras: a falácia de composição, que atribui ao todo as propriedades de suas partes; a falácia de divisão, que faz o contrário; a petição de princípio, em que a conclusão já está nas premissas; o apelo à emoção, que manipula afetos para evitar argumentos racionais; o apelo ao povo, que afirma que algo é verdadeiro porque muita gente acredita; o apelo à tradição, que defende uma prática apenas por ser antiga; o apelo à novidade, onde o novo é valorizado apenas por ser recente; a inversão do ônus da prova, que obriga o outro a refutar o que não foi provado; a falácia de acidente, que aplica uma regra geral a casos particulares de forma inadequada; a falácia de contexto, que tira frases ou dados do seu ambiente original; o argumento circular, que repete a conclusão como prova; e, finalmente, a falácia da alegação especial, que introduz exceções arbitrárias para proteger uma afirmação.
—Estes são os vinte e dois tipos de falácia presentes no discurso —disse o professor, apontando com o laser a lista completa—. Agora que conhecem o quadro geral, devem saber que, no discurso que vamos analisar, identifiquei pelo menos quarenta e cinco falácias concretas. Cada um de vocês trabalhará com um tipo de falácia, seus computadores irão indicar qual.
Marta levantou a mão. Seu gesto era uma mistura de incredulidade e um leve incômodo —embora ninguém na sala tenha entendido exatamente o porquê—.
—Mas isso é impossível —disse ela—. Como uma única pessoa vai dizer quarenta e cinco falácias de vinte e dois tipos diferentes em trinta minutos de discurso?
O professor fez uma pausa. Percebeu que talvez tivesse se adiantado demais, que tinha tomado como óbvio algo que não era para todos. Respirou calmamente antes de responder.
—É uma boa pergunta, Marta —disse, com tom compreensivo—. Mas há algo importante que precisamos entender. Quando ouvimos um discurso presidencial, não estamos ouvindo simplesmente uma pessoa improvisando. O que ouvimos é resultado do trabalho de toda uma equipe de especialistas, provavelmente os melhores no que fazem, com formação em retórica, psicologia, publicidade, análise de opinião e comportamento social. Um gabinete especializado em construir mensagens que impactam, que mobilizam, que convencem.
Ele fez uma pausa, olhando para o grupo.
—Por isso é tão difícil para nós. É uma batalha desigual. Eles tiveram semanas para redigir, revisar, testar, e são treinados para isso. Nós, por outro lado, recebemos tudo de uma só vez. Precisamos interpretar, desmontar, entender, sem preparação prévia. E justamente por isso precisamos fazer a análise que estamos prestes a começar: para aprender a identificar esses mecanismos, compreender não só o que se diz, mas como se diz. E, principalmente, para quê.
Uma mão se levantou com impaciência. Era Pablo.
—Mas isso não é justo! É um trabalho difícil! E nós somos crianças!
O professor olhou para ele com seriedade, mas sem reprovação.
—Você tem razão. Não é fácil. Mas essas coisas já nos cercam, mesmo que nem sempre percebamos. Às vezes influenciam nossas famílias, as notícias, o bairro... E quando vêm de alguém tão influente quanto um presidente, não só afetam o país, mas também podem ter consequências globais, como no caso que estamos analisando hoje. Por isso vale a pena aprender a entendê-las.
Ele se aproximou da mesa, tomou um copo d'água e acrescentou:
—Omissão da análise crítica é parte do sucesso do falacioso. Diferente do falso, que pode ser rapidamente confrontado e desmorona diante de dados, o falacioso exige esforço maior para ser desmontado. Por isso é tão eficaz.
Desenhou no quadro uma seta indo de uma premissa a uma conclusão:
—“Se chover, a rua estará molhada.” Lógico? Sim. Mas se vocês veem a rua molhada e concluem: “Choveu”, estão assumindo a causa sem verificar. Pode estar molhada por outros motivos que não a chuva. Isto, por exemplo, é uma falácia do tipo falsa causa.
Voltou para a tela principal.
—Para este trabalho, vocês vão usar inteligência artificial —disse o professor—. Assim como uma calculadora serve para resolver operações complexas sem substituir o entendimento matemático, a IA pode ajudar a identificar estruturas falaciosas usando lógica e dedução. Não analisa por vocês, não tira conclusões. Mas permite processar mais informação, detectar padrões e concentrar o esforço onde importa: no juízo crítico. A análise final, a interpretação e as conclusões devem ser de vocês. A tecnologia auxilia, mas não pensa por vocês.
A turma, em silêncio, começou a trabalhar em seus computadores, seguindo as instruções na tela. Cada um com seu tipo de falácia atribuído.
Foi então que Pablo abriu os olhos. Estava em sua cama. O despertador ainda não tinha tocado. Suava. “A tarefa?”, pensou angustiado. “A tarefa de Educação Cívica!”
Sentou-se assustado, mas logo lembrou: era só um pesadelo.
Não havia nenhuma psicohistória. Nem tarefas sobre discursos presidenciais. Nem falácias.
A tarefa era outra: recortar e colar imagens de embalagens de plástico, vidro, papel e papelão, e colá-las numa folha com lixeiras de diferentes cores desenhadas.
Suspirou aliviado.