Por que os algoritmos de recomendação geram indiferença?

Por que os algoritmos de recomendação geram indiferença?

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Os algoritmos de recomendação organizam hoje grande parte da experiência digital. Plataformas de vídeo, redes sociais e outros serviços digitais de conteúdo utilizam esses sistemas para decidir o que aparece na tela do usuário e em que ordem. Analisam o comportamento dos usuários —o que veem, quanto tempo permanecem, o que compartilham ou abandonam— para prever que conteúdo manterá sua atenção por mais tempo. Esse funcionamento tem consequências que vão além da tecnologia: modifica a forma como percebemos a informação e produz um fenômeno cada vez mais visível na sociedade contemporânea, a indiferença.

A experiência cotidiana do presente tem uma forma muito precisa: o deslocamento infinito. Telas que não terminam, feeds que não se esgotam, conteúdos que aparecem antes que haja a intenção de buscá-los. A lógica que organiza esse ambiente não é a do acesso à informação, mas a da continuidade. O gesto fundamental já não é escolher, mas deslizar.

As plataformas não organizam o conteúdo para informar, mas para manter o usuário dentro da plataforma. O critério de valor não é a verdade, a relevância ou a importância, mas o tempo de exposição. Operacionalmente, esse tempo é medido como permanência: quanto tempo o usuário passa dentro do sistema. Em termos econômicos, traduz-se em atenção, o recurso que as plataformas vendem no mercado publicitário. No capitalismo digital, essa atenção funciona como a matéria-prima que permite monetizar publicidade, dados e comportamento.

Os sistemas de recomendação gerenciados por inteligência artificial otimizam esse objetivo com uma precisão inédita. Analisam padrões de consumo, tempos de visualização e pequenos gestos do usuário —pausar um vídeo, retroceder alguns segundos, ler comentários, abandonar um conteúdo antes de terminar—. Não buscam o que o usuário quer em um sentido consciente, mas aquilo que maximiza a probabilidade de que ele continue. Cada gesto se converte em sinal, cada pausa em dado, cada segundo em uma variável que permite ajustar o seguinte conteúdo.

Esse é precisamente o princípio que guia os algoritmos de recomendação: manter o fluxo contínuo de conteúdos para prolongar a atenção do usuário.

Cada peça deve ser estimulante o suficiente para reter, mas não exigente o suficiente para saturar ou provocar abandono. O resultado é um ambiente de variação constante: surpresa, emoção, polêmica, humor, indignação, ternura, escândalo. Uma sucessão constante de estímulos breves projetada para manter o usuário em um estado de ativação moderada, mas constante.

À primeira vista, este ecossistema parece orientado à intensificação emocional. No entanto, seu efeito dominante é o contrário.

A adaptação perceptiva diante da hiperestimulação digital

O cérebro humano não foi projetado para sustentar altos níveis de estimulação de forma contínua. Seu funcionamento depende do contraste e da novidade relativa. Quando o ambiente eleva permanentemente a intensidade média dos estímulos, o sistema nervoso se adapta.

Esse processo de adaptação tem consequências precisas. A primeira é a elevação do limiar. O que antes gerava surpresa ou impacto deixa de fazê-lo. Para produzir a mesma reação é necessária mais intensidade, mais novidade ou mais emotividade. O ambiente responde oferecendo conteúdos cada vez mais intensos, mais dramáticos ou mais surpreendentes. Mas o sistema perceptivo volta a se adaptar e o limiar se eleva mais uma vez.

A segunda consequência é o encurtamento da duração emocional. As reações continuam existindo —indignação, medo, entusiasmo— mas se extinguem rapidamente. O sistema neurobiológico aprende que não faz sentido investir energia afetiva em algo que será substituído em segundos por um novo estímulo.

A terceira consequência é a redução do envolvimento sustentado. Aparece um estado basal de baixa reatividade: as pessoas continuam reagindo ao que veem, mas essas reações se esgotam rapidamente e raramente se transformam em um envolvimento duradouro. Indignação, entusiasmo ou medo aparecem por alguns segundos e desaparecem com o próximo conteúdo. Não se trata de ausência de emoção, mas de uma sucessão de reações breves que não chegam a se acumular nem a aprofundar.

Do ponto de vista perceptivo, o efeito é decisivo. Para que algo se torne verdadeiramente significativo, são necessárias duas condições: intensidade suficiente e duração suficiente. Não basta que algo impacte; precisa permanecer o tempo necessário para reorganizar a atenção. Quando as reações se extinguem em segundos, essa possibilidade desaparece. O grave e o trivial produzem o mesmo padrão: uma reação breve seguida de um deslocamento imediato para o próximo conteúdo.

O mundo deixa então de se organizar por importância. Começa a se organizar por ordem de aparecimento.

A administração algorítmica do tempo e da atenção

O problema não é simplesmente que haja muita informação ou muitos estímulos. O problema é que a duração das coisas já não depende de sua gravidade, mas do ritmo do sistema.

As plataformas não apenas selecionam conteúdos. Administram a temporalidade da experiência. Cada peça é inserida em uma sequência projetada para manter o movimento constante de conteúdos. A permanência não é decidida pela importância de um acontecimento, mas por sua capacidade de manter a atenção do usuário e prolongar seu tempo dentro da plataforma.

Isso não é apenas uma questão técnica, mas econômica. No modelo de negócios do capitalismo digital, o lucro depende diretamente do tempo de exposição. Quanto mais tempo o usuário permanece dentro do sistema, mais dados são gerados sobre seu comportamento. E quantos mais dados existem, melhor podem ser otimizados os conteúdos para prolongar ainda mais essa permanência. Esse aumento do tempo de exposição também aumenta as oportunidades de exibir publicidade ou introduzir outras formas de receita dentro da plataforma. A continuidade do consumo converte-se assim no critério central que organiza a experiência.

Nesse contexto, mesmo os acontecimentos mais graves ficam submetidos à mesma lógica temporal que qualquer outro conteúdo. Sua presença no espaço público não depende de sua importância objetiva, mas de sua compatibilidade com essa dinâmica de atenção contínua.

Quando a duração das coisas deixa de depender de sua gravidade e passa a depender do ritmo do sistema, ocorre um deslocamento perceptivo profundo. Os acontecimentos já não permanecem tempo suficiente para reorganizar a atenção pessoal e coletiva. Aparecem, geram uma reação breve e são rapidamente substituídos pelo próximo conteúdo.

O resultado é um ambiente em que a experiência se organiza como uma sucessão contínua de estímulos breves. A adaptação perceptiva eleva o limiar de reação, as emoções se encurtam e o envolvimento sustentado se torna cada vez mais difícil.

Pouco a pouco, as diferenças se erodem. O grave e o trivial produzem o mesmo padrão de reação: um impacto momentâneo seguido do deslocamento para o próximo conteúdo.

O resultado não é uma sociedade mais emocional, mas o contrário. As pessoas continuam reagindo, opinando ou compartilhando conteúdos, mas essas reações duram muito pouco. Aparecem por alguns segundos e desaparecem com o próximo estímulo. Nada permanece tempo suficiente para se converter em uma preocupação duradoura ou em algo que realmente envolva o sujeito.

Quando tudo se converte em conteúdo

Uma representação especialmente precisa desse fenômeno aparece em Don't Look Up (Adam McKay, 2021), estrelado por Leonardo DiCaprio. O filme narra a descoberta de um cometa que impactará a Terra e provocará a extinção da humanidade. Dois cientistas tentam alertar sobre o perigo, mas sua mensagem fica presa no mesmo ecossistema midiático que caracteriza o presente digital.

No filme, a descoberta do cometa não é ocultada nem negada em sentido estrito. Os dados existem, os avisos são públicos e as imagens circulam. No entanto, o cometa nunca consegue se tornar um acontecimento no sentido forte do termo.

Desde o primeiro momento, entra no mesmo circuito que qualquer outro tema midiático: programas de entretenimento, debates políticos, memes, escândalos pessoais. Compete dentro da mesma sequência de conteúdos. O problema não é que haja muita informação ao redor, mas que o cometa fica preso na mesma temporalidade que qualquer outro conteúdo.

Cada tentativa de alarme reproduz o mesmo ciclo que caracteriza o ecossistema digital: alarme, viralização, polarização, fadiga e deslocamento. O medo aparece, mas não se sustenta. A urgência existe, mas não chega a se estabilizar como estado coletivo.

O filme mostra ainda outro mecanismo fundamental do sistema contemporâneo: sua capacidade de absorver inclusive aquilo que tenta questioná-lo. O cientista que tenta alertar sobre o perigo acaba se tornando uma figura midiática, e sua presença pública desloca progressivamente a atenção do problema para sua própria imagem. Algo similar ocorre com a jovem pesquisadora que descobre o cometa: sua reação emocional diante da trivialização do desastre transforma-se rapidamente em material viral. A mensagem desaparece; o que circula é a imagem de sua reação.

Até a política absorve o acontecimento dentro de sua lógica habitual. O cometa deixa de ser uma ameaça absoluta e passa a se converter em uma variável dentro do cálculo eleitoral, da estratégia midiática ou da oportunidade econômica.

Nada fica fora do circuito. O sistema não precisa negar a realidade. Basta integrá-la.

O resultado é um paradoxo inquietante. O fim do mundo é vivido dentro do regime normal de conteúdos. O cometa não falha porque as pessoas não o veem. Falha porque sua duração emocional está submetida ao mesmo ritmo de qualquer outro conteúdo.

Da hiperestimulação à apatia

À primeira vista, pode-se pensar que uma sociedade exposta a estímulos constantes seria uma sociedade especialmente emocional. Se o tempo todo aparecem conteúdos intensos —escândalos, polêmicas, catástrofes, indignação, humor— pareceria lógico esperar um ambiente de reações fortes e contínuas.

A hiperestimulação é a condição que caracteriza o ambiente digital contemporâneo: uma sucessão contínua de conteúdos projetados para captar a atenção por alguns segundos antes de serem substituídos pelo próximo. O tempo de cada peça não depende de sua importância, mas do ritmo do sistema e da lógica do deslocamento constante.

Nesse ambiente, o sistema perceptivo se adapta. A adaptação eleva o limiar de reação: o que antes produzia surpresa ou impacto deixa de fazê-lo. Para provocar a mesma reação é necessária cada vez mais intensidade.

Mas essa intensificação tem um efeito secundário importante. Quando o limiar se eleva, as emoções duram menos. E quando as emoções não se sustentam no tempo, o envolvimento afetivo diminui. As pessoas continuam reagindo, mas cada reação se esgota rapidamente.

O que circula no sistema são conteúdos intensos. O que se consolida no sujeito é a apatia.

Essa apatia não é indiferença no sentido psicológico clássico. Não é desinteresse consciente nem cinismo deliberado. É o resultado de um sistema perceptivo que aprendeu a não investir demais em nada porque o ambiente muda constantemente.

Neste ponto aparece o sentido mais profundo da indiferença contemporânea. A própria palavra o sugere em sua origem latina: in-diferentia. O termo se forma a partir de differentia, diferença, precedido pelo prefixo in-, que indica negação. Indiferença não significa simplesmente desinteresse, mas algo mais radical: a incapacidade de estabelecer diferenças significativas entre as coisas.

Para que algo seja verdadeiramente relevante, deve distinguir-se do fundo, ocupar o campo e alterar prioridades. Mas em um ambiente onde todos os conteúdos circulam com o mesmo formato, a mesma duração e sob o mesmo gesto de consumo, essa distinção torna-se extremamente difícil.

A guerra, a fome, as catástrofes naturais ou os abusos de poder aparecem na mesma sequência que um vídeo humorístico, uma discussão entre celebridades ou uma curiosidade viral. Não se nega a gravidade dos fatos, mas na experiência todos recebem o mesmo tempo emocional.

Tudo se torna conteúdo.

E o conteúdo tem características muito precisas: não exige continuidade, não implica consequências pessoais imediatas e sempre pode ser substituído pelo próximo elemento da sequência.

A sociedade que perde sua capacidade de reação

Quando os algoritmos de recomendação organizam a experiência pública sob essa lógica de fluxo contínuo, as consequências deixam de ser apenas individuais. Uma sociedade organizada desse modo perde uma capacidade fundamental: a de reagir coletivamente. A ação política, a mobilização social ou as transformações históricas requerem uma experiência compartilhada de interrupção, um momento em que algo deixa de ser um tema a mais e se torna intolerável dentro da ordem existente.

As revoluções, as grandes transformações sociais e os momentos de ruptura histórica sempre surgiram quando um acontecimento consegue se estabilizar como experiência comum, quando algo se torna impossível de ignorar e reorganiza as prioridades coletivas.

Se nenhum estado emocional se sustenta no tempo e nenhum acontecimento consegue se estabilizar, essa condição deixa de existir.

O resultado não é uma passividade visível. Os indivíduos continuam informados, opinam, reagem e compartilham conteúdos. Mas toda essa atividade ocorre dentro de um regime de continuidade que não coloca em risco o sistema.

Nesse contexto, o poder adota uma forma distinta. Já não precisa impor nem censurar. Basta otimizar o ambiente digital, regular a experiência e antecipar o comportamento. Os sistemas que organizam a circulação de conteúdos não apenas reagem ao que fazemos: analisam grandes volumes de dados, calculam probabilidades e antecipam padrões de atenção e conduta.

A figura do tecnocrata em Don't Look Up representa precisamente este modelo. O empresário que controla a grande plataforma tecnológica do filme dirige um sistema capaz de processar enormes quantidades de informação sobre os indivíduos e prever seu comportamento. Seu poder não consiste em persuadir nem em reprimir, mas em calcular, antecipar e regular a experiência coletiva a partir desses dados.

Aqui aparece uma assimetria profunda. Enquanto a sociedade percebe o mundo como uma sucessão contínua de conteúdos —onde o grave e o trivial ocupam o mesmo espaço de atenção— aqueles que controlam as infraestruturas digitais podem decidir o que aparece, em que ordem aparece e sob que forma circula. Ao fazê-lo, tudo acaba reduzido ao mesmo formato: conteúdo. E quando tudo adota esse formato, os acontecimentos perdem gradualmente sua gravidade, sua hierarquia e sua capacidade de reorganizar a experiência coletiva.

O fim do acontecimento na era algorítmica

A consequência última é silenciosa, mas profunda. Os problemas do mundo —as guerras, a fome, as catástrofes ou os abusos de poder políticos e econômicos— não desaparecem. O que muda é a forma como são experimentados.

No ambiente digital contemporâneo, tudo aparece por alguns segundos antes de ser substituído pelo próximo. As pessoas reagem, mas essas reações se esgotam rapidamente. O resultado é um sujeito que percebe continuamente, mas raramente chega a se envolver.

Nesse contexto, mesmo os fatos mais graves perdem sua capacidade de se impor sobre o resto. Um desastre pode aparecer na tela, provocar uma reação momentânea e desaparecer na próxima atualização. Não deixa de existir, mas sua gravidade já não consegue ocupar de forma sustentada o centro de nossa atenção.

O que antes podia reorganizar a preocupação coletiva agora circula dentro da mesma sequência que qualquer outro conteúdo.

Quando a experiência individual se organiza desse modo, a sociedade perde também sua capacidade de reação. As pessoas continuam informadas, comentam, compartilham e opinam, mas essa atividade se dissolve antes de se transformar em ação coletiva.

O mundo não perdeu gravidade. O que perdeu é a possibilidade de se impor a nós como algo que exige uma resposta: algo que nos obriga a parar, a reconsiderar prioridades e a reagir pessoal ou coletivamente diante do que deveria ser inaceitável.

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