Por que estamos cheios de boas intenções?
As boas intenções: o cenário emocional
Vivemos rodeados de boas intenções. Encontramo-las em cada canto do espaço digital, em cada postagem, em cada comentário que repete a frase certa, o emoji adequado, a preocupação precisa.
Etimologicamente, intenção vem do latim intendere, que significa tensionar em direção a algo. Não remete a um estado passivo, e sim a um movimento. No uso cotidiano, porém, as boas intenções não remetem a uma vontade orientada à ação, mas a uma manifestação discursiva de desejo ético: querer o melhor, não causar dano, apoiar uma causa. Nesta forma moderna de vida hiperconectada, as intenções foram em grande parte reduzidas à sua enunciação.
O imperativo social contemporâneo é claro: é preciso estar informado, mostrar que está presente, que se empatiza. Essa vigilância emocional permanente se canaliza digitalmente: seguimos histórias, reagimos a postagens, respondemos mensagens. Porém, essa forma de atenção, aparentemente empática, não implica ação real. Sua lógica é a da música de fundo: está sempre ali, envolvendo a cena, gerando um clima afetivo homogêneo, mas sem interromper, exigir ou incomodar. Seu papel é decorativo, um fio musical emocional.
Essa atmosfera de boas intenções encontra seu ancoradouro mais estável no consumo. Não só se posta e se compartilha: se compra, se contrata, se assina. O mercado soube traduzir valores afetivos em produtos: cuidar de si, ajudar, compartilhar, amar, empatizar: tudo pode ser transformado em um produto, um app, um curso, uma assinatura mensal. A intenção vira objeto. O gesto, mercadoria emocional.
Isso não é sintoma menor: quando o gesto é o único ponto de chegada, quando a compra é o único envolvimento possível, ele deixa de ser limiar e vira fronteira. Não há ambiguidade, não há incerteza: há um circuito fechado que protege o eu do conflito, da perda, da espera. O desprazer é um custo que não se quer assumir, e em seu lugar impõe-se a experiência reconfortante, imediata, emocionalmente segura. Assim, o problema não é a existência do gesto, mas quando esse gesto é tudo o que acontece, quando se naturaliza que esse seja o limite.
Sair dessa lógica —não resolver a falta com um produto, não postar empatia, não publicar indignação— implica ficar exposto ao olhar alheio, ser lido como alguém que "não se cuida", "não evolui", "não se envolve". O mercado oferece soluções para cada mal-estar, cada angústia, cada incômodo: não comprá-las, não consumi-las, não postá-las parece quase um ato de abandono. Nesse sentido, o não consumo é um gesto radical: não pelo que afirma, mas pelo que deixa de sustentar, pela falta que não se tenta suturar.
Assim, a boa intenção se transforma em solução ansiolítica, uma forma de manter o ideal ético sem pagar o preço do comprometimento. Torna-se uma sutura simbólica à falta, à distância entre o "querer ser" e o risco de se comprometer.
Intencionalidade: o custo de se comprometer com o possível fracasso
Mas toda intenção verdadeira remete a uma intencionalidade: uma orientação real da ação para algo. Não basta querer; é preciso sustentar um movimento, tomar posição, arriscar. A intencionalidade exige envolvimento, decisão, exposição e, talvez, fracasso.
É aí que o sistema entra em curto-circuito. Porque, quando após a postagem ou a assinatura, se espera algo além do gesto, quando o terreno da ação se abre, o sujeito contemporâneo entra em conflito. Agir implica incerteza, demora, possibilidade de fracasso. Implica abandonar a zona segura do "eu ético" que diz querer, e colocar em jogo uma subjetividade capaz de errar.
Isso entra em choque frontal com o discurso dominante do eu como unidade de eficiência e autocuidado. O "olhe por si mesmo" não tolera a intromissão do outro, muito menos se este outro é sofredor, problemático ou imprevisível. Comprometer-se supõe colocar em jogo tempo, energia, identidade, até mesmo a estabilidade emocional. Supõe adiar gratificações, tolerar a dúvida, conviver com o desprazer.
Aí surge a contradição central: queremos mudança, mas sem pagar o preço do fracasso. Queremos agir, mas sem que isso implique demora, ambiguidade ou perda. Porém, a intencionalidade exige exatamente isso: sustentar a incerteza, enfrentar o risco de que o que façamos não seja suficiente, ou até mesmo dê errado. Mas esse risco é o que abre a possibilidade do verdadeiramente novo: não há transformação sem atravessá-lo.
A intencionalidade nos coloca diante do real: não do que dizemos ser, mas do que realmente somos ao agir ou, mais brutalmente, ao falhar. É aí que surge o núcleo mais temido: a possibilidade do fracasso, de não estar à altura, de descobrir que não podemos ser o que queremos ser, ou que sê-lo não é como esperávamos. As boas intenções, por sua vez, preservam o eu desse confronto. Mantêm-no seguro, flutuando na estabilidade do "querer ser", sempre livre de consequências.
Aí reside sua verdadeira armadilha: nos condenam de modo anestesiado a um fracasso invisível, o de não fazer nada. Mas esse fracasso não dói, porque está amortecido pelo discurso social: você postou, tentou, comprou. Fez o certo. Além disso, é o que todos ao seu redor também fazem. O entorno devolve o afago simbólico: "a intenção é o que conta". Ninguém pode te reprovar —exceto, talvez, você mesmo—.
Estamos, talvez, em uma época que aperfeiçoou a arte de dizer sem fazer, de empatizar sem se envolver, de denunciar sem se transformar. As boas intenções cumprem uma função de contenção: evitam a ruptura ética que seria assumir que não vamos agir. Permitem seguir adiante sem culpa, apoiados por um sistema que transforma o não fazer em gesto socialmente aceitável, enquanto o reveste de elogios, emojis e reações automáticas. Substituímos decisões difíceis por uma sequência infinita de emoções enlatadas.
Se não resgatarmos a intencionalidade —essa capacidade de agir além do gesto—, corremos o risco de viver em um teatro perpétuo de gestos previsíveis e emoções recicladas, onde tudo parece importar, mas nada muda, onde todos querem o melhor, mas ninguém quer pagar o preço.
Agir não é simplesmente querer. É, sobretudo, saber sustentar uma direção quando a música de fundo se cala, manter o interesse sem risadas enlatadas, suportar a incerteza e a dificuldade sem a aprovação automática de um emoji ou de um like.